um colega questionou se meu marido gostou da viagem que fizemos. eu disse que sim e argumentei que não poderia ser diferente, já que meu marido gosta de viajar e não possui nenhum tipo de
o colega ficou bastante feliz, pois eu poderia repetir a viagem em outra ocasião, segundo palavras dele. e então entrou o momento em que falei demasiadamente. eu acrescentei que mesmo que o marido não tivesse gostado, eu iria novamente. o colega, um evangélico fundamentalista, arregalou os olhos. e perguntou o que eu faria se meu marido não permitisse minha viagem.
eu disse que não existe isso de não-permitir-minha-viagem. eu faço o que eu quiser. o colega arregalou mais ainda os olhos. e disse que uma mulher não pode agir assim não. disse que a mulher tem que ser submissa e portanto eu devo obedecer ao meu marido. e que o homem é a cabeça da casa.
palavras chave estão em negrito. por que? ele repetiu aquilo que o pastor disse. para provocar (e já que eu tinha falado demais, anyway) pedi que ele me mostrasse o versículo onde isso era dito. ele não sabia.
sem argumentos, ele questionou o que eu faria se o marido viajasse sozinho. eu disse que não faria nada, já que ele é livre. ele perguntou sobre ciúmes. argumentou sobre dar brecha para que ele me traísse;
falei que isso não existe em meu relacionamento: há confiança. e ele pode me trair sem viajar. não é um pré-requisito. a falta de lógica (ou lógica bizarra) das pessoas não deixa de me impressionar.
para não gerar um desconforto ainda maior, ele mudou de assunto. e seguimos nossas vidas, com cordialidade e alegria. e então no mesmo dia em que essa conversa se deu, eu li esse texto. ele chegou até mim pelo twitter, mas eu já conhecia esse blog. ele pretende ser um blog inteligente e pretende discutir as coisas com um pouco mais de profundidade e com argumentos, mas as discussões sobre filosofia e história sempre me parecem um tanto parciais e superficiais. sobre a parcialidade, tudo bem, já que é um blog cristão e tratará de enviesar para esta ideologia. sobre a supercialidade, hum, não se pode ter tudo. de qualquer maneira, gosto muito quando falam de maneira crítica sobre as diversas denominações evangélicas existentes por aí. isso é um verdadeiro comércio, uma extorsão generalizada e uma crueldade contra uma sociedade massacrada pelos serviços ruins do Estado e pela miséria.
voltemos ao texto em questão. eu não fiquei impressionada com o fato de ele ter sido escrito por uma mulher. é uma mulher cristã. ponto. é o tipo de coisa no qual elas acreditam. triste? sim, fazer o quê. só que ao ler o texto, fiquei com a grande impressão que a autora e a grande maioria das cristãs estão confundindo submissão com respeito.
vamos ao significado da palavra submissão:
submissão
(latim submissus, -a, -um, particípio passado de submissio, -onis)
s. f.
1.
Acto ou efeito de submeter ou de se submeter.
=
SUBMETIMENTO
2.
Obediência.
3.
Sujeição.
4.
Humildade.
é OBEDECER. SUJEITAR-SE. no maior exemplo didátido de jeanie é um gênio.
sim meu amo. sou uma gênia atrapalhada, mas você não vai ficar bravo comigo, porque eu sou uma gracinha.
eu não preciso disso. você não precisa disso. estamos em 2012 e você foi para a escola, adquiriu cultura e conhecimento. você tem um trabalho bacana (e se não tem, vai ter :) ). conhecimento é poder. conheço muitos casais em que a mulher é visivelmente mais inteligente que o marido. por que raios o marido DEVE ser o cabeça? a gente não tem escolha? não posso eu ser a cabeça? não podemos tomar nossas decisões juntos?
você não precisa ser submissa a ninguém! alguns podem dizer: "ah, mas tem o trabalho" ou "ah, e a chefia?". minha filha, essas são suas tarefas. esse é seu trabalho. há uma organização no trabalho, uma hierarquia. que deve ser respeitada. e você também deve ser respeitada. você deve fazer seu trabalho bem feito para manter as coisas funcionando bem. respeitar é bem diferente de sujeitar-se. acha seu trabalho degradante? não quer acatar uma decisão da chefia por julgá-la absurda? converse, argumente, processe, lute pelos seus direitos ...
quer ser a chefe? quer abrir seu próprio negócio? você também pode. basta querer e trabalhar bastante.
percebam que grifei a palavra respeitada. sim, porque é dessa forma que devem ser todas as relações. baseadas no RESPEITO. mesmo que o homem seja o provedor financeiro da casa, o casamento é uma empresa. a mulher administra, limpa a casa, cuida das crianças, etc. não CONSIGO ver uma hierarquia aí, simplesmente porque o homem é quem está trazendo o dinheiro. cada um está desempenhando um papel (que poderia ser o contrário: homem dono de casa e mulher empresária) e ninguém é menor ou está em uma escala de poder mais baixa simplesmente porque traz o dinheiro. não quero correr o risco de parecer vermelhinha, mas a associação cristianismo + capitalismo fez com que essa conclusão de hierarquia doméstica (homem=cabeça+provedor e mulher=submissa) virasse algo comum e aceito como se fosse normal.
o evangelho quer se aproximar das pessoas no século XXI mas continua achando que a bíblia deve ser interpretada literalmente (literalidade apenas quando convém, na verdade). o evangelho quer vestir uma 'capa moderna', mas as mesmas idéias continuam sendo propagadas. os evangélicos querem parecer inteligentes, mas continuam propagando as mesmas coisas ditas pelos seus pastores, sem sequer pensar sobre elas. na verdade, as coisas continuam iguais.
