Meu Charlie Chu-Chu
Eu tinha 5 anos de idade e estava no banheiro. No meio das revistas e cruzadinhas, encontrei um livreto intitulado O Coração do Homem. Comecei a folhea-lo e me apavorei.
O livro ilustrava, sob a óptica cristã protestante fundamentalista e cheio de simbolismos que não eram fundamentados pela Bíblia, o coração do homem que não tinha Deus. Vamos ser objetivos: o coração do homem que não era cristão protestante fundamentalista.
Eram símbolos fortes e associações assustadoras. No coração do homem ímpio, reinava Satanás e diversos animais, cada um relacionado a um pecado. A tartaruga era associada à preguiça, a onça à ira, etc. Já no coração do homem bom, reinavam Jesus e muitas pombas. As ilustrações não eram coloridas, então davam uma iluminada na imagem para mostrar a luz no homem com <<Deus no coração>>.
Eu tinha muito medo daquele livro. Alguma coisa me dizia que ele era de meu pai e foi dado a ele por algum familiar ou amigo que queria convertê-lo. Eu chorava sozinha, porque achava que o coração de meu pai, meu bom pai, era daquela maneira. Não conseguia compreender como um homem tão bom tinha aquelas coisas horríveis no coração.
E vocês sabem que para uma criança, símbolos não são só símbolos. Deve ser por isso que tenho pavor de lagartixas. Animais rastejantes sempre foram associados ao mal. Eu conseguia ver o rosto do meu pai no lugar das ilustrações do homem. Aquilo me apavorava. A imagem da morte, enorme e esquelética, levando as pessoas para as trevas, com um sorriso de satisfação. Pensava naqueles familiares e conhecidos que eram muito bons, mas não eram cristãos. Pensava sobre o sofrimento deles no inferno. Meu coração ficava pequeno e dolorido. E por muitos anos vivi uma angústia terrível, achando que eu estava pecando toda hora e corria um risco iminente de ir para o inferno.
Apesar do medo, eu folheava o livro. Acho que eu queria vencer esse medo. Talvez eu quisesse me certificar de que era aquilo mesmo. Talvez eu só quisesse matar o meu tempo enquanto cagava. Não sei. Acho que tudo isso.
Hoje fico indignada com o julgamento da pessoa que deu esse livro ao meu pai. Quem ela pensa que é? Por que? Meu pai não pode ser sem seguir sua religião? Eu não posso ser feliz? Ela é portadora da fórmula da felicidade? Ela não tem o que fazer? Por que não pega essa pretensão e enfia no cu?
Então hoje encontrei o livreto em PDF, para rever as ilustrações e mostrá-las ao meu marido. Apesar de hoje entender que as ilustrações não passam de reflexo da imaginação doentia e fanática de algum missionário, aquele medo irracional e infantil continua em mim. Aquele medo simples e objetivo. Ainda tenho mal estar vendo essas imagens.
Esse livro é a porra do meu Charlie Chu-Chu. E quando postei essa porra dessa imagem assustadora hoje de manhã, eu nem sabia que eu me lembraria desse livreto horrível até o final do dia de hoje.
E meu pai é um cara excepcional.
O CORAÇÃO DO HOMEM EM PDF