30.8.12

no fundo eu escrevo aqui como uma tentativa desesperada de não enlouquecer. é como se eu estivesse tentando evitar o impossível.

ontem eu estava conversando com uma amiga, que é professora de Português e Literatura em uma escola pública. essa amiga é muito inteligente e faz mestrado na USP

(já vi várias vezes algumas pessoas fazendo pouco caso da USP. claro que existem universidades melhores ao redor deste mundo, mas a USP é quase sempre uma das únicas brasileiras nos rankings. e claro que existem outras universidades brasileiras muito boas, depende da área.  eu sempre dou risada desses comentários recalcados disfarçados. é raposa demais pra pouca uva)

prosseguindo. o mestrado de minha amiga é sobre o modernismo, focando exatamente em Mário de Andrade, uma figura interessantíssima. há algum tempo estava rolando uma exposição no Museu da Língua Portuguesa a respeito do modernismo. focaram muito em oswald, uma pena. mário de andrade me parece bem mais interessante, talvez porque ouço mais sobre ele, graças a esta amiga.

bom, minha amiga está morrendo de vontade de explorar textos em sala de aula. de discutir, de falar, de extrair o máximo dos adolescentes. mas ela não consegue. segundo ela, os poucos que se salvam são no máximo medíocres. e só pensam em notas. e a maioria da sala tem dúvidas sobre exercícios que sequer leram.

não entendi, professora...
deixa quanto espaço, professora?
quantas linhas, professora?
falta muito?

essas coisas irritam qualquer professor com aspirações superiores ao salário no fim do mês.

ficamos trocando informações, falando sobre a mediocridade humana e eu expliquei para ela que ela certamente é mais inteligente que a média. eu me sinto assim também. eu sei que alguns tem mais conhecimento em matemática, outros em história, etc. não importa. mas quando você busca conhecimento, é capaz de compreender a paixão do outro que também busca, mesmo que em outra área.

o problema é que nem todo mundo segue o conselho do et bilu. de um modo geral, as pessoas são chatas, não saem de sua zona de conforto, não leem, não se informam, não fazem nada. apenas convertem gás oxigênio em gás carbônico. essa é a vida delas.

eu tenho certeza que eu não me encaixo neste mundo. queria ter capacidade para fazer um doutorado. pelo menos eu conviveria com gente mais inteligente do que eu. eu prefiro me sentir um ignorante no meio de sábios do que uma "sábia" no meio de ignorantes.

e coloco o "sábia" dessa maneira porque eu sei que não sou toda esta merda. obrigada por me elogiarem, amigos. eu tenho noção de que sou inteligente, mas não sou tanto quanto gostaria. eu queria ser mais esforçada, por exemplo. tenho noção que não sei tudo. tenho noção mesmo. eu sei meu lugar.

deve ser aquela velha história da bexiga vazia. o conhecimento é uma bexiga. se tu não sabe nada, a bexiga é vazia e sua área de contato com o mundo externo é menor. então você acha que sabe muita coisa.

pode reparar: as pessoas mais ignorantes e preconceituosas são normalmente as que acham que sabem de tudo. agem com certo recalque, até.

e quando você aprende, a bexiga se enche. e se enche. e quanto mais tu aprende, mais fica cheia. e mais você tem noção de que nada sabe.

filosofia de boteco apresentada para mim há muitos anos pelo mestre R. um grande amigo :)