7.8.12

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente. [Renato Russo]

Estive pensando o quanto todos nós somos hipócritas. Eu sou hipócrita, você é hipócrita. O problema é que nos recusamos a admitir isso. Estou tentando admitir esta característica e tenho me sentido bem deprimida.

Certa vez eu estava conversando com uma pessoa muito inteligente. Ela entende muito de artes e de história, e recentemente fez uma viagem por diversos pontos da Europa, visitando museus e monumentos. Fazendo todo aquele passeio que a classe média tanto adora, mas que ela julga ter aproveitado mais por já ter um prévio conhecimento. E concordo com ela nesse ponto.

Então ela começou a julgar aqueles que não queriam aproveitar o passeio e preferiam fazer compras na El Corte Inglés, visitar o Hard Rock Cafe ou encher a pança de biscotinho afrescalhado em qualquer padaria exclusiva.

Fiquei pensando que ela está certa e errada ao mesmo tempo. Certa porque é coisa de idiota ficar comprando roupa de liquidação cafona e malfeita em El Corte Inglés. Mas isto é o que ela e eu estamos dizendo, não é? E aí entra a parte de ela estar errada: o que ela, você ou eu temos a ver com a vida de quem faz isso? Se não está me enchendo o saco, faça o que quiser. E eu adoro biscotinhos afrescalhados de padaria metida a besta. E eu adoro chafurdar numa liquidação. Podemos ser as duas coisas, mas dar prioridade a uma delas. Sempre que viajo, faço as duas coisas. Faço o que me dá na telha, é verdade. Por essa razão, não me sinto em posição confortável criticando certas atitudes dos seres humanos, porque veja bem, eu sou humana e posso resolver ter as mesmas atitudes.

Nem ela e nem eu queremos ser criticadas porque amamos museus. Os outros também não querem ser criticados porque querem tirar foto com look do dia na frente da Sagrada Família. Ok, só que nenhum dos lados se contém e acaba criticando. E a gente segue assim. O embaçado das críticas é que a gente sempre acha que é melhor que o outro e a raiz da maioria das críticas está nisso. Só que gostar ou não de ir em museus são meras banalidades. Vocês vão entender. Essa pessoa que conheço diz que ficou horrorizada com tanta gente ~feia~ na França, se referindo aos imigrantes do Sahel. Ela também ficou horrorizada com os gays se beijando em Barcelona. Quando conversávamos sobre o comportamento excessivamente esfuziante e constrangedor de alguns brasileiros, ela mencionou que era um problema regional. Enfim, pensei em argumentar com ela nesses três pontos, mas eu decidi apenas ouvir, dar sorrisos amarelos, menear a cabeça em sinal de simpatia e formular minha opinião mentalmente.

Achei que ela foi sincera, porque assumiu aquilo que pensa. Só que assumiu com uma naturalidade assustadora. Por isso fiquei negativamente impressionada. Ela julga ser culta, mas é ignorante sob vários aspectos. E talvez nem faça seus julgamentos por mal: somos frutos de uma sociedade com essas características.

Foi então que pensei: é bastante provável que eu seja assim. É bastante provável que eu me julgue culta ou proprietária de alguma bagagem cultural, mas certamente tenho esse tipo de atitude reprovável. Fiquei pensando em situações que vivi e em atitudes que tomei e fiquei envergonhada. È muito fácil ver os erros dos outros. Acho que o outro é como um espelho.