texto parcialmente escrito em feministês
minha vida ficou bem mais fácil depois que aprendi a ser honesta comigo e com os outros.
- vc é parceirx do seu [insira aqui amigx, namoradx, colega, etc]?
- parceira, como?
- brother, fiel?
- ah, eu sou.
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- então, se eu fingir isso, elx vai pensar aquilo e vou conseguir o que eu quero.
vou dar um exemplo não muito prático, mas que tem a ver com algumas coisas que pessoas específicas já me relataram. algumas feministas me condenariam pelo exemplo, mas a narração abaixo faz parte de algo muito maior que presenciei recentemente. a história abaixo é fictícia, mas possui elementos da ~vida real~.
vamos imaginar que Fulana quer muito ser mãe. não vamos DEBATER os motivos de fulana (sociedade impôs? família impôs?). ela simplesmente quer ser mãe. só que Fulana casou-se com Fulano (ok, sem DEBATER sobre heteronormatividade ou o que seja) e Fulano não quer ser pai. ele realmente decidiu isso, não é algo que esteja em discussão. sem analises freudianas sobre suas razões: ele simplesmente não quer.
Fulana não quer abrir mão de seu sonho de ser mãe. e fulano não quer abrir mão de seu posicionamento. num mundo mais simples e coerente, talvez Fulano e Fulana nem teriam se casado, porque normalmente as pessoas debatem coisas antes de assumir um compromisso mais sério. ok, mas a gente sabe que as pessoas mudam de ideia sobre a vida. vamos supor que antes Fulana não queria ser mãe e agora quer (ou Fulano antes queria ser pai e agora não quer mais).
ainda assim, num mundo mais simples e coerente, Fulana e Fulano se separariam e encontrariam pessoas mais compatíveis com seus projetos. numa utopia da hora, Fulano e Fulana poderia ser bons amigos após a separação.
só que para maioria das pessoas, o mundo não é simples e coerente.
a Fulana da minha história decidiu que vai fazer merdinha. vai dar um jeito de engravidar. parou de tomar pílula. Fulano descobriu, e resolveu usar camisinha, óbvio. agora Fulana vai usar o golpe mais sujo que qualquer mulher dita independente do século XXI faria: greve de sexo. Fulana só vai voltar a fazer sexo com Fulano se for sem camisinha.
e a vida do casal ficou um inferno.
e aquela história ridícula de que ~a mulher TEM QUE convencer o marido DE QUALQUER COISA~ vem a tona.
e as pessoas não são felizes.
não, não gosto e nem preciso manipular ninguém para conseguir algo que eu quero. isso é ridículo. isso é difícil, gasta um tempo de processamento que meu cérebro simplesmente não possui. sempre que eu tento tramar alguma coisa, eu me sinto ridícula. não consigo organizar minha vida em curto prazo e para coisas simples, imagine bolar uma situação mirabolante que faça com que uma pessoa faça algo que me beneficie? acho que não consigo mais.
por que algumas mulheres (homens também, mas pela narração acima, o leitor deve ter reparado que me refiro a situações do universo feminino) precisam criar situações desse tipo para conseguir aquilo que querem? por que fazer com que sua vida seja uma tragédia grega?
por que a literatura, o cinema, o teatro, a tv, o cacete a quatro ainda hoje retratam a mulher como uma criatura manipuladora? por que vendem a ideia de manipulação do bem?
ah, se Fulano tiver um filho, ele pode crescer, evoluir, ser um ser humano melhor. no final, Fulana terá feito o bem para ele.
mentira. qualquer coisa "do bem". do bem me parece um rótulo mágico, que faz com que qualquer porcaria seja aceitável. faz com que qualquer ação seja legitimada. eu manipulei sua mente, mas fiz isso para o seu bem.
que mentira da porra. me mostre uma situação em que a manipulação traz benefícios para o manipulado. não existe. pode até ocorrer um benefício indireto, mas o objetivo principal é óbvio que é de beneficiar o manipulador.
cadê o debate? cadê a exposição das opiniões? por que não tentar convencer, amigavelmente, que ter um filho é uma coisa positiva (hipoteticamente falando)? por que não agir de maneira franca?
ninguém debate mais. ninguém consegue ouvir não. ninguém consegue se resignar, e entender que algumas pessoas tem convicções particulares que não podem ser mudadas. somos um bando de idiotas que quer que o mundo molde-se de acordo com nossas necessidades.
o pior: querem que eu aja assim. várias colegas em situações variadas (seja ter um filho, gastar 200 reais numa calcinha, ir no clube das mulheres ou qq porra assim) sugerem que eu (ou qq outra colega do grupo) devo dizer outra coisa para o marido. ou seja: devo manipulá-lo, porque, segundo algumas colegas, é isso que a mulher tem que fazer. outro dia, li uma reportagem dizendo que a namorada deve dizer para o namorado que gastou um valor menor nas compras.
não.
se eu quiser gastar 200 reais numa calcinha, eu gasto e assumo as consequências disso, não preciso enrolar meu marido.
se eu quiser ir ao clube das mulheres, idem. problema meu. posso ter problemas em meu relacionamento depois dessa atitude? sim, posso. eu devo lidar com isso. eu que escolhi ir, ué.
acho que minha vida fica bem mais simples quando ajo com franqueza.
quero agir como um ser humano adulto. manipular e enrolar é coisa de criança. qual criança nunca fez isso para enrolar seus pais?
tem isso também: há toda uma tradição em infantilizar as mulheres. seja mimada, seja birrenta. seu marido vai ter dar o que quiser. outro dia eu estava pensando que essas mulheres realmente conseguem o que querem (pelo menos as que conheço). aparentemente, elas tem uma vida bem mais fácil do que a minha. elas não tem dilemas e tem uns limites morais um pouco diferentes dos meus.
se são limites morais melhores ou piores do que os meus, cabe a cada um decidir. prefiro não pensar assim. acho que os limites morais delas não servem para mim.
eu já fiz tanta merda imoral na minha vida. quando eu era adolescente, até uns 20 e poucos anos, não era inteiramente sincera. fiz pessoas sofrerem por isso e eu sofri bastante também. eu pensava muito nisso de manipular. eu sempre sofria no final.
foi quando eu decidi que agiria como uma mistura de betazoide e vulcana.
não tenho nada para esconder.
[o que não significa que ficarei fazendo comentários indiscretos sobre minha vida]
tenho que agir com lógica e serenidade.
[o que não significa que sou realmente assim, mas tento ser]
foi quando eu decidi que eu iria tentar ser adulta. com responsabilidades e tudo.
e é difícil pra caramba, mas é o que eu acho certo.