9.3.12

todos tem suas questões.

era sobre isso que minha amiga A. e eu conversávamos no sábado. ela veio me visitar, e falávamos sobre terapia. concluímos que muitas pessoas se equivocam, acreditando que terapia é 'coisa de rico' e que pobre não tem questões para serem resolvidas, pois a falta de dinheiro é a maior das questões.

eu discordo. acho que na verdade são dois problemas distintos. na verdade, não ter dinheiro pode causar algumas questões. mas não ter dinheiro está longe de ser o único problema das pessoas. pode ser parte de muitos problemas, no entanto. se ter dinheiro significasse felicidade eterna, não teríamos tantas senhoras ricas do rivotril por aí. por isso concluímos: todos tem suas questões, e quase nunca são as mesmas questões.

ouvi um termo hoje: RIVOTRADA. eu ri. 

enfim, minha amiga e eu concluímos que mais da metade das pessoas não concordam com essa opinião, e acham que consultar um psicólogo é coisa de rico metido a besta. são as mesmas pessoas que acreditam que depressão é frescura de gente ociosa. não vou julgar quem pensa assim, basta dizer que discordo dessas pessoas.

fiquei a semana inteira pensando em minhas questões. e não são poucas. concluí basicamente que não consigo acreditar que sou feliz seguindo um modelo diferente do de minha família. concluí também que não consigo acreditar que sou feliz seguindo um modelo diferente do que a sociedade tenta impor. vou dar breves e suficientes detalhes sobre minha vida para que a compreensão ocorra.

sou de uma típica família de classe média-média. minha mãe sempre trabalhou em casa. meu pai trabalha fora. estudava em escola pública. morávamos em uma casa própria, em um bairro humilde. casa esta que vivia em construção. viajávamos para a praia vez ou outra. as vezes rolava até de ir pra bahia, visitar os parentes. e éramos muito felizes. quando digo que éramos felizes, parece que não somos mais. na verdade somos sim, meus pais são as melhores pessoas do mundo. é que minha infância já se foi e faz algum tempo que não moro mais com eles.

quando eu era menina, não passava muito pela minha cabeça o sonho do casamento. eu queria estudar. viajar. conhecer o mundo. eu achava que se eu me casasse teria que ficar em casa fazendo serviço da casa, coisas que nunca fiz de boa vontade.

eu arrumava namoradinhos, mas eu pensava: quando eu crescer, vou comprar um apartamento. mas vou morar sozinha. e ele que compre o dele. nos visitaremos mutuamente e assim minha vida seguirá. talvez moremos juntos se tivermos filhos.

mesmo a idéia de ter filhos era meio nebulosa. eu tinha bonecas quando criança, devo ter chamada alguma de filhinha, mas não que isso significasse necessariamente que eu deveria ter filhos. na verdade não. nunca pensei muito nisso até meus 25 anos. e olha, eu sempre tive um jeito maravilhoso com crianças, de verdade.

bom, daí conheci alguém realmente especial. muito especial mesmo. e em pouco tempo vimos que teríamos que ficar juntos. estamos juntos e felizes. só que de alguma maneira, meu cérebro acha nossa felicidade estranha. estranha aos padrões de felicidade que vivi ao longo de toda minha vida. de alguma maneira, eu achava que eu teria que ficar em casa, me dedicando ao ócio, enquanto meu marido trabalhava. ele chegaria em casa por volta das 18h, seria recebido com um grande beijo (e minha perna levantaria). eu estaria impecável, e tiraria uma torta do fogo. e sentaríamos na mesa, sorrindo mutuamente.

a parte da culinária se concretizou. a parte dos sorrisos também. só que eu não sou dona de casa em tempo integral. e meu marido passa mais tempo em casa do que eu, pois em sua função há flexibilidade e ele pode trabalhar parcialmente em casa.

o mais embaralhante, é que mnos entendemos super bem. conosco, não há essa de você-não-vai-sair-com-os-amigos. eu não deveria me queixar disso, mas é que cresci em uma casa onde minha mãe se sacrifica(va) muito pela família. vi minha mãe se negligenciar várias vezes. daí eu acho que estou fazendo algo errado. fico neurótica. pensamentos dolorosos passam pela minha mente.

essa semana disse a um querido amigo que ele não deveria ter medo de ser feliz. ele está muito feliz, em um relacionamento novo e meio que estava 'incrédulo' com as coisas boas que estavam acontecendo com ele. eu disse pra ele aceitar a felicidade. eu acho que devo por este conselho em prática também.

ouvindo: issues - the saturdays.