5.10.12

Tenho a impressão que o pensamento universal é de que as mulheres são criaturas dissimuladas e traiçoeiras. Na verdade, acho que de um modo bastante geral, boa parcela da humanidade é assim, ou seja, não é algo restrito às mulheres. Talvez isso realmente tenha sido restrito às mulheres no passado. Esse negócio de ficar o dia inteiro em casa, fazendo apenas serviços domésticos (quando não tinha empregada, tipo aqueles livros que retratam a burguesia no final do século XIX) deve nos incentivar a criar confabulações mentais.

Acho que eu ficaria louca. Serviços domésticos são repetitivos. Sei lá, se eu ficasse só em casa, faria as coisas de casa e leria bastante, correndo o risco de trair meu marido, como Madame Bovary ou Luísa. A primeira Madame Bovary morreu porque não aguentava mais, certeza. E essa repetição leva a loucura. Não tem uma cena em Brumas de Avalon que a Morgana fica meio em transe mexendo com uma roca, ou coisa assim?

Bom, quando começo a escrever livremente, sempre acabo divagando e fugindo do assunto principal que eu queria falar. Mas eu ainda me lembro: o pensamento universal de que mulheres são criaturas dissimuladas e traiçoeiras. Não sei se é porque sou Pollyana-Shine-Happy-People-Holding-Hands, se é porque sou burra mesmo ou se é porque sou sortuda, mas é que encontrei pouca gente assim na vida real. Na verdade, quando noto alguma coisa estranha no comportamento de alguém normalmente corto a relação. Às vezes sou babaquinha e insisto um pouco, claro. E me fodo, claro. Mas normalmente não me fodo tanto assim.

O fato é que não me considero dissimulada e traiçoeira. E com frequência em minha vida fui injustiçada, pois erroneamente me taxaram assim. E o engraçado é que  aqueles que me taxaram foram pessoas por quem tenho ou tive alguma consideração.

Agora é a parte que conto algumas histórias sobre minha vida envolvendo esta temática e vocês riem da minha cara.

Certa vez, antes do mundo seguir adiante, eu estava com meu ex-namorado (chamaremos de Ex n°1) na frente do computador. Ele estava me mostrando uma imbecilidade qualquer, não me lembro bem. Emocionalmente instável que sou, comecei a chorar por alguma razão imbecil e aleatória. E encostei minha cabeça no colo dele. E ele me consolava. Daí meu pai desceu as escadas e concluiu que estava realizando um boquetão no namorado e fez um comentário revoltoso qualquer, provavelmente querendo dizer que eu fosse puta ou qualquer coisa assim. E nem tinha acontecido sexo. E nem ia acontecer, cara. Por que, meu Deus? Se pelo menos eu tivesse sido repreendida mas algo legal tivesse acontecido??? Mas NADA tinha acontecido. NADA. E qualquer coisa que eu pudesse dizer para contornar a situação era logo invalidada.

Porque gente, quando você leva uma bronca/castigo/surra por algo que realmente aconteceu, pelo menos valeu a pena. E quando nada aconteceu? Minha vida é uma sequência infinita de mal entendidos, desde que nasci. O mais impressionante é que eu não consigo ser dissimulada. Eu joguei Sonic minha vida toda. Uma pessoa dessas simplesmente não consegue ser dissimulada.

Lógica das participantes do programa do Silvio Santos, amém.

Uma segunda história com a mesma temática envolveu uma camisinha. Por uma razão óbvia e que não carece de detalhes, eu estava abaixada e segurava uma camisinha na mão em frente a um guarda-roupas aberto. Daí eu fui me levantar para fechar o guarda-roupas. Então esbarrei meu braço numa das prateleiras e derrubei uma gavetinha cheia de brincos. Eu tenho uma mania esquisita de não largar o item que eu estou segurando enquanto preciso pegar/recolher outro item. Não consigo explicar. Complexo de Sheeva, eu não sei bem. Eu não deixo a coisa de lado para mexer/pegar na outra coisa. Não estou falando de piroca, estou falando de coisas em geral,ok?

Bom, quando derrubei essa gavetinha de brincos, brincos espalharam por todo o guarda-roupa. Com medo de perder algum brinco (tenho uma coleção considerável) comecei a recolhe-los, ainda segurando a camisinha. Meu marido entra pela porta e pergunta o que estou fazendo. Super sem graça (eu estava com a camisinha na mão, lembram-se?) explico que estou recolhendo os brincos. Ele pergunta, em tom jocoso,

aquele maltido tom de quem quer brincar dizendo a verdade 

se eu estava tentando furar a camisinha para dar o golpe da barriga. É gente, aí entra um outro probleminha: eu não tenho ética feminina. Há muito tempo fui em um salão de beleza (coisa que odeio fazer) e ouvi uma moça contando orgulhosa que furava todas as camisinhas do namorado para dar o golpe da barriga. Contei esse curioso fato de dissimulação e premeditação ao meu marido. Certamente, com sua memória de nerd, ele arquivou essa informação. E diante da cena Samantha+camisinha+brincos, imaginou que eu estava fazendo o mesmo.

Eu não sei me defender. Fiquei vermelha diante da acusação dele e um pouco revoltada. Tentei me explicar, mas vocês concordam que a cena era tão esquisita que qualquer defesa seria em vão? Expliquei, ele acreditou em mim

ou fingiu que acreditou, que Deus nos ajude

e as coisas seguiram.

E é assim, gente. Minha vida é uma sequência interminável de mal entendidos. Eu me meto em situações que fazem com que a pessoa entenda que sou culpada e criminosa. Tenho certeza que um dia vou caminhar por um parque e vou ver uma faca do Rambo no chão. Vou pegá-la porque acho legal, apesar de estar suja de sangue (e foda-se a AIDS é uma faca do Rambo). E metros adiante, um corpo jazerá esfaqueado.

A polícia chegará NAQUELE MOMENTO. E assumirá que sou uma assassina. E serei presa, para finalmente ser sistah de Suzane Richthofen. 

Minha vida é assim. E muitos dirão que sou a mais dissimulada da face da Terra, por estar escrevendo esse post. Ninguém acredita em mim. Tipo Cassandra.