Vou resumidamente explicar minha vida para vocês. Não sei muito bem como fazê-lo sem expor-me, mas creio que se extrair as palavras que estou pensando, vai dar certo.
Eu odeio hipóteses.
Eu sou funcionária de uma instituição X. Estou indo satisfatoriamente bem por lá, e também pego uns freelas de vez em quando. Meu marido trabalha com uma coisa muito nerd, não vou ficar falando pois ele é mais (muito mais) avesso à exposição do que eu. O trabalho de meu marido não é estável, mas digamos que ele é um dos únicos que sabe fazer o que ele faz, então dificilmente ficará sem emprego, mesmo que tenha que se mudar para um local distante.
Parênteses.
Como a gente aqui em São Paulo é deprimente. Imensamente deprimente. Nós achamos que todo lugar é longe, quando na verdade, São Paulo é longe dos outros lugares. Vocês entenderam, é questão de onde P(x,y,z)=(0,0,0) estão localizados para você e FODA-SE o mundo é cartesiano pra mim. Acho que os paulistanos deveriam pegar seus umbigos e enfiar nos respectivos cus.
Fecha parênteses.
Bom, mas eu sou funcionária relativamente estável de uma instituição X. E numa hipótese de marido arrumar um emprego muito bom e outro lugar ($).($), eu terei que deixar essa tal estabilidade. Até porque, como mencionei, meu marido faz/trabalha uma coisa que poucas pessoas trabalha. E isso faz com que em longo prazo, ele ganhe mais dinheiro.
Enfim, e eu fui falar de hipóteses. E fui falar disso com meu pai, que é o cara mais chato e legal do mundo ao mesmo tempo salve bipolaridade. E ele começou a falar como se meu marido fosse o magnata da Castanha de Caju e morássemos no interior do Ceará. Argumentando com uma delicadeza lusitana um tanto falha que eu estudei pra caralho e não deveria deixar de trabalhar, deixar minha estabilidade e os caralhos.
Vocês entenderam? Meu pai falou como se a hipótese fosse realidade ou realidade iminente. Calma, foi só uma hipótese, dentro de um oceano de tantas outras. E então compreendi porque me irrito com ele. Quando ele começou o discurso, tive que segurar as lágrimas. E eu sempre fui assim, a vida toda. Não sei explicar porquê. Pelo menos, com a idade, ficou bem mais fácil secá-las antes de aparecerem.
Acho que sei porque fico assim. Eu me irrito e não sei expressar a irritação. É um sentimento bem confuso dentro de mim. Me sinto ofendida pela grosseria de se meter na minha vida. Me sinto contente porque ele se importa comigo. E isso provoca uma tempestade elétrica e eu quero chorar. Ás vezes, quero vomitar.
Mas eu sei expressar o que eu quero. Eu não teria medo de mudar, de começar de novo, se chegássemos em uma cidade ou país novo. Claro que não é fácil, é bem desafiador na verdade. Por um período de minha vida saí de São Paulo e morei em São José dos Campos. Tive que procurar casa pra morar, procurar me adaptar, conhecer um novo círculo de amizades, etc, E achei a experiência muito boa, pra dizer a verdade. Apesar de parecer uma esquisita misantropa, normalmente me saio bem em situações assim. Se eu saísse agora daqui, com a idade avançada para os padrões internetianos, acho que eu conseguiria me adaptar. Acredito que seria uma experiência interessante. Mas meu pai só sabe pensar nos cifrões. Não o culpo, na verdade. Ele veio de uma época difícil, teve que batalhar milhões de vezes mais do que eu. Eu sofri bem menos do que ele nas minhas batalhas e conquistei mais. Ele tem medo que eu perca tudo isso.
Feministas, vou acabar com vocês.